Como é de costume, uma história para nossa reflexão. Enjoy it!
O viajante que deixa a velha cidade de Sanna, no Sul da Arábia, em direitura ao pitoresco oásis de Beik, pode seguir dois caminhos ou um atalho.
Era exatamente por esse atalho que o prudente Azer Nejm seguia, ao pardejar da tarde, quando avistou o seu dedicado amigo Nascif Buazar, o carpinteiro do rei.
Nascif ia andando vagaroso, a cabeça baixa e o semblante denotava que negros pensamentos envenenavam o seu conturbado espírito.
Vendo-o assim tão apreensivo, Azer Nejm não se conteve e indagou qual era a causa daquele desgosto.
- Uma desgraça, meu amigo - lamentou Nascif com voz sucumbida, quase soluçante. - Uma verdadeira desgraça! Imagine você que o rei Assad encomendou-me um pequeno armário onde ele pudesse conservar os duzentos turbantes de sua coleção. Trabalhei na peça cerca de oito dias e mandei, afinal, levá-la aos aposentos do rei. Por um lamentável descuido de minha parte o tal armário tinha um defeito na armação e depois de colocado pelos servos e arrumado pelas escravas partiu-se em dois pedaços espalhando pelo chão os ricos turbantes do rei. Enfureceu-se o monarca com o caso, que afinal não tinha a menor importância, e resolveu que eu fosse impiedosamente castigado.
- E qual foi o castigo? - indagou Nejm vivamente interessado.
Respondeu Nascif, levantando o rosto numa expressão dolorosa:- Determinou que eu seria obrigado a levar amanhã, ao palácio, depois da primeira prece, três caixas de serragem, sendo uma caixa de serragem amarela, outra, de serragem preta e a terceira, de serragem vermelha, cor de sangue. Se eu não conseguir toda essa serragem, dentro do prazo marcado, serei enforcado no pátio do antigo mercado. - E, dobrando a cabeça sob o peso de sua amargura, acrescentou em tom de desespero: - Sinto-me irremediavelmente perdido, meu amigo! Como conseguir tanta serragem num prazo tão curto? Nem sei, afinal, o que faço...
- Nada mais simples - interrompeu Nejm. - Na minha opinião você deve afastar do espírito esse desespero torturante, que nada justifica, e bem depressa ir para casa erguer louvores a Deus!
- Louvores a Deus! - exclamou Nascif, de golpe, fitando o amigo com surpresa. - Como pode um homem que se sente em desesperadora situação, sob ameaça de morte, erguer louvores a Deus! Não acredito que você, com tal conselho, queira zombar de minha aflitiva situação.
- E quem falou em situação aflitiva? - retornou Nejm, com inflexão de bondade e pesar. - As palavras que você acaba de proferir encerram uma verdadeira heresia. A sua situação, a meu ver, é magnífica e nada tem de assustadora. Posso provar, em poucas palavras, que a boa sorte milita em seu favor. Que exigiu de você o rei Assad? Três caixas de serragem, repare bem: três caixas!, quando, por simples perversidade, o tirano caprichoso poderia inventar uma exigência absurda requisitando de você trinta ou quarenta caixas. Ainda mais. A serragem deve ser amarela, preta e vermelha - tudo possível e até bem fácil de se obter. Basta, para isso, escolher a madeira conveniente. E se ele, por extravagância, preferisse a serragem azul ou dourada? Não seria mil vezes pior? Logo, meu amigo, você é um homem de sorte. Trate de ir para casa, como já disse, erguer louvores a Deus!
Impressionado pelas sensatas e sinceras palavras do amigo compreendeu o carpinteiro que a sua situação poderia, na realidade, ser mil vezes pior. Já mais animado dirigiu-se para casa e mandou reunir todos os amigos e vizinhos aos quais narrou o sucedido.
- E que vais fazer? - indagaram.
- Erguer louvores a Deus! - explicou Nascif. - Obter a serragem exigida pelo rei parece-me quase impossível e quando um homem se sente em situação desesperadora, sem amparo no mundo, só uma coisa pode fazer: erguer louvores a Deus!
E puseram-se todos a cantar e a orar, erguendo louvores a Alá, o Único!
Pela manhã, muito cedo, avistou Nascif dois guardas que a cavalo, pela estrada, se encaminhavam para sua casa.
- Estou perdido - pensou o carpinteiro transido de pavor. Os soldados do rei já vêm à minha procura.
Despediu-se Nascif de sua família e de seus amigos e foi ao encontro dos enviados do tirano.
- Quem é aí Nascif Buazar, o carpinteiro? - gritou com voz trovejante um dos guardas.
- Sou eu - acudiu logo Nascif. - Sinto muito dizer que não tenho nem meia libra de serragem amarela...
- Quem falou em serragem? - recalcitrou o guarda com mau humor, encarando-o de revés. - Guarde a sua serragem amarela que não precisamos dela para nada. Vamos levá-lo ao palácio por ordem do novo príncipe...
- Do novo príncipe? - estranhou Nascif.
- Sim - confirmou o guarda. - A ordem é do novo príncipe Ben Nezul. O rei Assad faleceu esta noite e o príncipe Rustã precisa, com urgência, que você vá ao palácio a fim de tomar as medidas e preparar o caixão do rei! E pelo serviço receberás uma recompensa!
- O rei Assad morreu! - bradou Nascif.
E, voltando-se para os companheiros que o rodeavam, exclamou de afogadilho, com o coração alvoroçado de prazer:
- Meus amigos, ergamos louvores a Deus! Nada pode o homem conseguir na vida sem o auxílio de Deus!
Uassalã!
Do livro Lendas do Deserto, de Malba Tahan
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